mais forte do que firme
mais homem do que rapaz
mais ousado do que acossado
mais suicida do que um cossaco
mais real do que um...
um
só um
dores de amor e outras dores menos dignas

Tão logo nos conhecemos, trocamos dois beijinhos, um, dois, e eu já sabia que tinha me fodido. Pensei: me fodi. E, realmente, eu me fodi. Kika era uma moça de vinte e poucos anos, cabelos negros, olhos negros, quase de esfinge, e um corpo es-cul-tu-ral. Leitor, caro, faço questão de escrever assim, com as sílabas devidamente separadas umas das outras para que você tenha a impressão exata do corpo dela. Era es-cul-tu-ral. Faz diferença ao ler e escrever escultural de es-cul-tu-ral. Manjou?
O.k., vamos adiante.
Trabalhava em banco, eu acho. Caixa de banco, eu acho. Preste atenção, aqui você só vai encontrar achismos. Não há certeza. Nenhuma certeza. Quer dizer, há uma certeza, essa eu garanto: o corpo de Kika era es-cul-tu-ral. O resto, meu caro, são só achismos. Devaneios de uma segunda-feira qualquer. Dito isso, vamos em frente.
Ei, Kika, quantos anos você tem? Vinte e oito, recém-completados. A crise dos vinte e oito, pensei. Ou disse. Não me lembro. Aquela história do retorno de saturno, saca? Quando os astros, as estrelas, constelações inteiras parecem se movimentar com uma única intenção: foder tua vida. Virar ela de cabeça para baixo, sacudir, remexer, cavocar até a alma, e te jogar de novo no mundo. E aí, mermão, aí é com você. A estrela já vai estar em outra, a constelação já terá se dissipado e você estará sozinho, com a porra do gosto da derrota na boca e um punhado de problemas para resolver. Esquece os problemas de dinheiro, de saúde e de existência. Com o retorno de saturno, o problema é mais embaixo. Vem de dentro para fora, saca?
O.k., vamos voltar ao assunto principal.
Kika era casada. Kika tinha um filho. Foda-se. Eu estava apaixonado por ela. Foda-se mais ainda. Kika estava apaixonada por mim. Eu também tinha alguém na minha vida. De fato importante. Mas não era nenhum casamento. Nenhum filho parido no mundo. Seria deliciosamente simples e canalha dar um belo pé na bunda da minha gata e me jogar na cama da Kika – ou ela se jogar na minha, tanto faz. Mas eu não dei um pé na bunda da minha gata. E Kika, por hora, também não pateou o traseiro de seu amado. Kika normalmente tinha razão. Kika normalmente agia com a razão. Deixava escorrer seu líquido entre as pernas mas segurava a onda. Diferente de mim, cabeça oca, cara pálida. Mas o romance aconteceu. Traíamos sem trair. Saíamos escondido, trocávamos e-mails lascivos e ríamos daquela situação. Mas não nos beijávamos. Não nos tocávamos. Nos despedíamos com um breve e gélido beijo no rosto, quase sem encostar os lábios, e nos abraçávamos. E quando o abraço vinha a razão deixava de existir. O corpo dela encostado no meu, ainda que com uma série de camada de roupas, me excitava de modo que ela podia sentir, e eu sabia que ela sentia, meu pau duro. Eu sentia, e ela sabia que eu podia sentir, sua boceta expectorando agressivamente um doce e denso líquido. Cada um para o seu lado. Eu correndo pra casa. Me masturbar loucamente. Pensava nos cabelos negros, e nos olhos negros, quase de esfinge, de Kika. De seu corpo es-cul-tu-ral sobre o meu. Do vaivém dos nosso corpos. Do calor. Do suor. Da sua boceta cavalgando no meu rosto suado. Da minha língua atiçada pelo gosto doce da sua boceta. Do seu cu esfregando no meu rosto. Ah, como Kika era gostosa. Leitor, lembre-se, você está lendo achismos, quase um devaneio. Não acredite em nada disso. Trata-se de um plágio mal-feito no inferno de um livro dos seres imaginários.