quarta-feira, dezembro 28, 2005

estou de volta
mais forte do que firme
mais homem do que rapaz
mais ousado do que acossado
mais suicida do que um cossaco
mais real do que um...
um
só um

são só lágrimas

Uma garrafa de vinho depois... Um punhado de cigarros depois... por que(m) eu choro? Compulsivamente...

segunda-feira, novembro 28, 2005

getting over

squeeze my fragile body
taste my sour soul
go find the meaning of your life
and give up...
this thing you'll never know

domingo, novembro 27, 2005

diana

ser que nem sei quem é
ser eu, ela mais que nós
onde
longe
perto
lá sei
penso mais do que deveria
devo mais do que pensaria
e aqui me debato
bato na parede
com as mãos fechadas
o coração aberto
o que escrever
para esse ser (ainda) secreto

sábado, novembro 26, 2005

enquanto o conto não vem...

parada cardíaca

essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure
vem de dentro

vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento

Paulo Leminski

sexta-feira, novembro 25, 2005

out of order

esse blog executou uma operação ilegal e será encerrado (pelo menos por enquanto)

terça-feira, novembro 22, 2005

dia dos namorados

Fred: E aí Víctor, tudo bem?

Víctor: Tudo, e você?

Fred: Tudo também. O que você e a Carlinha fizeram no Dia dos Namorados, domingo à noite?

Víctor: Fomos jantar fora.

Fred: Legal. Comeram o quê?

Víctor: Ela massa, eu peixe.

Fred: Legal. Onde vocês foram?

Víctor: No shopping.

Fred: No shopping, Víctor??? No shopping, Víctor!!!!!

Víctor: Era um restaurante bom.

Fred: O.k., o.k. E depois?

Víctor: Depois fomos lá em casa escutar uma musiquinha.

Fred: Ah é.... E que música você colocou pra ela ouvir?

Víctor: Uma do Capital. Não lembro o nome...

Fred: Do Capital Inicial, Víctor??? Do Capital Inicial, Víctor!!!!!

Víctor: É uma música bonita.

Fred: O.k., o.k. E depois?

Víctor: Ah, depois ela disse que tinha que ir embora e não me ligou mais...

solidão

Pudera. Faltam alguns minutos para a uma da manhã e eu estou sozinho. Em casa sozinho. Das ordinárias caixas de som ecoa a música do Twin Peaks, aquele seriado cuja a trilha e enredo foram hype na década passada (ou seria retrasada?) e que hoje pouca gente sabe do que se trata. Laura Palmer. Angelo Badalamenti. Lembra?

Eu queria dar nome aos bois. Dizer quem desceu a escada, quem me ofereceu uma caipirinha, quem me seduziu (mesmo sem saber) com seus indefectíveis cabelos crespos e blusa brilhante, quem contornou os próprios lábios com a própria língua em minha direção, quem apertou a minha bunda atrevidamente... Mas eu não posso. Sequer posso dizer quem sou eu. Faz parte do jogo. Mas hoje é a madrugada de segunda para terça-feira e a semana ainda está só começando.

Diana, a não caçadora, provavelmente vai passar aqui logo mais, e é nela que penso nesse momento. Como será a moça? Ou será moço? Quantos anos? Que cor de cabelos? Altura? Peso? Cheiro? Gosto? Como será os lábios dela? E o beijo? A não caçadora virou caça. E será caçada. Até o fim. Há muitas. Nina, Paula, Maria… Os nomes pouco importam, são todos frutos da minha escassa imaginação. Pobre imaginação, combalida pelo álcool, ébria com o cigarros, displicente com uma carreira mal feita sobre a mesa. Mas é só a madrugada de segunda para terça.

jabá

sequer faço parte, mas tenho o prazer de divulgar:




segunda-feira, novembro 21, 2005

diana caçadora

Ó, doce Artemis, caçá-la-ei, entonces.

domingo, novembro 20, 2005

sal & pimenta











Ganhei saleiro e pimenteiro. Vazios.
Pra temperar a minha vida?
Quem é o sal? Quem é a pimenta?

ressaca

Já ouviu falar na "arte da suruba-lounge"?
Não?
Então vai lá: http://carapuceiro.zip.net/
Mas não demora muito senão não vai sobrar pra você...

quinta-feira, novembro 17, 2005

exercise your music muscle

Diga o que ouves que te direi quem és.
Cada detalhe corresponde a uma banda.
Exemplo: os três gorilas = Ggorillaz
alice acorrentada = Alice in Chains




to be or not to be

[...] And what would happen if we never read the classics? There comes a point in life, it seems to me, where you have to decide wheter you're a Person of Letters or merely someone who loves books, and I'm begining to see that the book lovers have more fun. Persons of Letters have to read things like Candide ot they're a few letters short of the whole alphabet; book lovers, meanwhile, can read whatever they fancy. [...]

Nick Hornby, Stuff I've Been Reading, The Believer oct./05


E AÍ, QUALÉ A SUA?

terça-feira, novembro 15, 2005

devaneios de uma temporada qualquer

1.
Eles eram pequenos. Deliciosamente pequenos. Levemente escuros. Delicadamente açucarados. Ligeiramente úmidos. Fazia 37 graus. Era verão. Firmes como a Estrela de David no topo de uma árvore de Natal. Os seios de Ana revestiam-se de um número sem-fim de minúsculos pêlos cuidadosamente clareados com cremosa água oxigenada fator 40. Na primeira vez que Theo olhou para os seios de Ana deixou escapar uma discreta cara de espanto. Encolheu levemente suas sobrancelhas e as bochechas sofreram uma contração involuntária. Mas era um espanto positivo. Cabiam-lhe nas mãos como uma estrela do mar. E a barba mal feita de Theo fazia cócegas em Ana assim como fazem os pêlos das estrelas do mar na palma das mãos. Eles gostavam daquilo. Ele gostava dela. Gostava do cheiro e do gosto do corpo e da saliva de Ana.
Foi um encontro casual. A primeira vez, digo. Um dia modorrento daqueles que nem merecia nascer. Mas se está aqui, nessa vida, também para encarar os dias modorrentos. Theo e Ana se conheceram de modo singular. Foram informalmente apresentados numa festa qualquer. Uma dessas festas promovidas por empresas, onde bebe-se muito, fala-se pouco e volta-se pra casa sem nada interessante — nem cabeça nem no banco de trás de uma velha Belina 83. Pessoas que freqüentam esse tipo de evento não valem lá muita coisa — matutava Theo. Pertencem ao segundo ou terceiro time da evolução humana. Mas ela parecia diferente. De fato ela era. Para ele, ao menos.
Almoçaram juntos alguns dias depois. Comida vegetariana indiana. Um restaurantezinho típico de cidade grande. De megalópole. O preparo e sabor das receitas são exatamente idênticos nessas bibocas. Não importa se se está em São Paulo, em Nova York, em Tóquio ou em Melbourne. E não pense que Paris ou Cochabamba é diferente. A comida é a mesma em Anchorage ou no Cairo. Você sabe do que estou falando.
Trocaram e-mails sem importância. E os meses passaram. Três pares deles se foram até o novo encontro acontecer. Aconteceu. As coisas acontecem. Simplesmente acontecem — acreditava Theo. Na verdade ele não acreditava muito nessa teoria. Mas esforçava-se. Seu esforço era efetivo, claro. Queria mesmo poder crer que as coisas, mais dias menos dias, simplesmente aconteciam.

2.
Desde o começo Ana deixou claro: abominava qualquer tipo de relacionamento. Namoro era uma palavra proibida em seu vocabulário. Vinte e poucos anos, bom emprego, morava sozinha. Curtia a vida. Fazia parte do que os jovens convencionaram chamar de "grupo de apoio". Ana tinha um grupo de apoio. Um seleto time de amigos sempre disposto a ajudá-la: na casa, no trabalho, na cama e onde mais precisasse. Não queria mudar. É bem verdade que Theo também vivia às voltas com uma série de garotas.
Cada mulher respondia a um papel importante na vida de Theo. Colocadas isoladamente de nada serviam. O que valia era o conjunto. Assim como o escrete canarinho na Copa do México de 1970. O que seria daquele genial drible de Pelé sobre o goleiro uruguaio Mazurkiewicz na semi-final se não fosse o toque certeiro de Tostão? Você lembra dessa jogada, não lembra? Não? Pensa melhor. Ah, tudo bem, isso não importa. Serviu para ilustrar a narrativa. Dá um certo charme ao texto. Bem, voltando. Assim funcionavam os romances de Theo. Uma mulher dependia, essencialmente, da outra.
Mesmo com seus seios exageradamente diminutos, seu nariz adunco e uma veia que insistia em saltar da testa a cada gargalhada, Ana era perfeita. Para Theo, ao menos. Não só para ele, descobrira com o tempo. Theo já havia escutado histórias de homens que passaram anos sofrendo pelo amor não correspondido de Ana. Garotos que afirmavam, convictos, que ela era a mulher de sua vida. Mas jamais encontrou um exemplar, sequer um, que teve a fleuma de desdenhar o coração da moça.
Theo media 1,75 metro mas se considerava baixinho. Pesava 65 quilos e se achava gordo. Tinha os cabelos levemente encrespados. Queria tê-los lisos, bem lisos, para poder pentear para cima, para baixo e para os lados. E um pouco para frente também. Gostava dos anúncios da Gucci, da Prada e da Guess nos quais os modelos tinham cabelos bem lisinhos. Nos quais (provavelmente) os penteavam pra cima, e para baixo e para os lados e para a frente sem problemas.
Encontrou em Ana o equilíbrio ideal para suas fragilidades. Era o que ele achava. Que ilusão, Theo. Até parece uma criança — repetia para si mesmo, toda vez que passava em frente a algum espelho. A insegurança diante de questionamentos tão insignificantes serviam para se prender a alguém que, a cada dia, explicitava sua absoluta independência. Diante dos fatos, não raro Theo se enfurnava em casa e recusava viagens à praia, almoços em família e festocas com os amigos. Theo também morava sozinho. Theo também tinha independência e um trabalho relativamente importante. Mas preferia ficar consigo mesmo. Costumava dizer que as melhores viagens são as feitas para dentro de si mesmo. Aprendeu a frase com o amigo Tito, um nômade vinte e poucos anos mais velho, que trocava e-mails com ele mas nunca havia conhecido pessoalmente. Estranho esse mundo, não acha?

3.
Terça-feira. Noite. Theo entorna seu quinto mojito. Quantidade suficiente para aplacar a dor e mandar os problemas para longe da mesa do bar. Embriagar-se com os amigos havia se tornado uma espécie de esporte. Diversão e tanto. Não chegava a ser uma irresponsabilidade. Nem mesmo uma fuga. Simplesmente Theo gostava de encher a cara. Pelo simples prazer de estar com os amigos, cantar as meninas que quisesse e passar a noite com aquela que bem entendesse. Ele gostava da sensação. Gostava de perder o controle, ainda que achasse que, de fato, nunca o teria. Rir intensamente. Nesse ponto, considerava todas elas lindas e meigas e cheirosas e inteligentes. As mulheres de sua vida. Sabia que não eram nada disso, é claro. Mas deixemos ele. Tinha prazer em fantasiar, enganar a si mesmo. E com seu papo tão cafajeste e motejante em minutos estava comendo alguma delas no banheiro do bar, no penumbra da pista de dança ou na sala da sua casa.
Não considerava o quarto um lugar ideal. Essa afirmação carregava nas entrelinhas uma boa dose de pudor. Mas ele não confessa. Nunca confessou. Quanta inocência. Quanta hipocrisia. Afinal, na maioria das vezes, mal lembrava o nome da moça. Como poderia, então, levá-la para cama? Para dentro do seu quarto, aquele templo sagrado? Preferia currá-la no tapete da sala. Sobre o sofá. Apoiada na pia de mármore escuro da cozinha. Ou na varanda de seu apartamento, em noite estrelada e clima morno.
continua...

antes do jantar

Baixou o elástico da puída calça de moletom cinza. As pernas tremeram. Olhou para baixo, de soslaio, e respirou aliviado. Seu pinto ainda estava lá. Com calma e zelo, pressionou levemente o prepúcio e puxou-o em direção ao próprio corpo. Ardia um bocado. Um líquido transparente, espesso e gosmento lhe causou certo espanto. Um forte odor subiu-lhe às narinas. Resolveu se lavar.

William e Fátima anunciavam as últimas do governo e a derrota da seleção quando os pais de Max chegaram em casa. Um beijinho na mãe. Um beijinho no pai. E vruuuummm para o quarto. O pau ainda queimava. Segundo banho do dia.

— Filhoooo, olha a janta — gritou a mãe da cozinha.

— Jantar, mãe, é jantar, e não janta — corrigiu.

Guisado. Coca-cola. Guisado. Arroz. Coca-cola. Polenta. Blurp.

— Come devagar, seu idiota — irritou-se o pai.

Ao lado da cozinha, num cubículo, sobre um beliche cor-de-rosa, Mirleide suspirava com os românticos e açucarados contos da coleção Sabrina.

— Pode tirar a mesa — ordenou a mãe.

Mirleide tinha 18 anos. Trabalhava na casa de Max desde os 15 e perdera a virgindade naquela tarde. Max tinha 42. E síndrome de Down.

0h30

Estou procurando no Google o sentido da vida.
Alguém sabe?

segunda-feira, novembro 14, 2005

Digressões mundanas

Tão logo nos conhecemos, trocamos dois beijinhos, um, dois, e eu já sabia que tinha me fodido. Pensei: me fodi. E, realmente, eu me fodi. Kika era uma moça de vinte e poucos anos, cabelos negros, olhos negros, quase de esfinge, e um corpo es-cul-tu-ral. Leitor, caro, faço questão de escrever assim, com as sílabas devidamente separadas umas das outras para que você tenha a impressão exata do corpo dela. Era es-cul-tu-ral. Faz diferença ao ler e escrever escultural de es-cul-tu-ral. Manjou?

O.k., vamos adiante.

Trabalhava em banco, eu acho. Caixa de banco, eu acho. Preste atenção, aqui você só vai encontrar achismos. Não há certeza. Nenhuma certeza. Quer dizer, há uma certeza, essa eu garanto: o corpo de Kika era es-cul-tu-ral. O resto, meu caro, são só achismos. Devaneios de uma segunda-feira qualquer. Dito isso, vamos em frente.

Ei, Kika, quantos anos você tem? Vinte e oito, recém-completados. A crise dos vinte e oito, pensei. Ou disse. Não me lembro. Aquela história do retorno de saturno, saca? Quando os astros, as estrelas, constelações inteiras parecem se movimentar com uma única intenção: foder tua vida. Virar ela de cabeça para baixo, sacudir, remexer, cavocar até a alma, e te jogar de novo no mundo. E aí, mermão, aí é com você. A estrela já vai estar em outra, a constelação já terá se dissipado e você estará sozinho, com a porra do gosto da derrota na boca e um punhado de problemas para resolver. Esquece os problemas de dinheiro, de saúde e de existência. Com o retorno de saturno, o problema é mais embaixo. Vem de dentro para fora, saca?

O.k., vamos voltar ao assunto principal.

Kika era casada. Kika tinha um filho. Foda-se. Eu estava apaixonado por ela. Foda-se mais ainda. Kika estava apaixonada por mim. Eu também tinha alguém na minha vida. De fato importante. Mas não era nenhum casamento. Nenhum filho parido no mundo. Seria deliciosamente simples e canalha dar um belo pé na bunda da minha gata e me jogar na cama da Kika – ou ela se jogar na minha, tanto faz. Mas eu não dei um pé na bunda da minha gata. E Kika, por hora, também não pateou o traseiro de seu amado. Kika normalmente tinha razão. Kika normalmente agia com a razão. Deixava escorrer seu líquido entre as pernas mas segurava a onda. Diferente de mim, cabeça oca, cara pálida. Mas o romance aconteceu. Traíamos sem trair. Saíamos escondido, trocávamos e-mails lascivos e ríamos daquela situação. Mas não nos beijávamos. Não nos tocávamos. Nos despedíamos com um breve e gélido beijo no rosto, quase sem encostar os lábios, e nos abraçávamos. E quando o abraço vinha a razão deixava de existir. O corpo dela encostado no meu, ainda que com uma série de camada de roupas, me excitava de modo que ela podia sentir, e eu sabia que ela sentia, meu pau duro. Eu sentia, e ela sabia que eu podia sentir, sua boceta expectorando agressivamente um doce e denso líquido. Cada um para o seu lado. Eu correndo pra casa. Me masturbar loucamente. Pensava nos cabelos negros, e nos olhos negros, quase de esfinge, de Kika. De seu corpo es-cul-tu-ral sobre o meu. Do vaivém dos nosso corpos. Do calor. Do suor. Da sua boceta cavalgando no meu rosto suado. Da minha língua atiçada pelo gosto doce da sua boceta. Do seu cu esfregando no meu rosto. Ah, como Kika era gostosa. Leitor, lembre-se, você está lendo achismos, quase um devaneio. Não acredite em nada disso. Trata-se de um plágio mal-feito no inferno de um livro dos seres imaginários.

ele está entre nós

"Tenho todos os desejos"
Iggy Pop

domingo, novembro 13, 2005

imaculada


Todos os dias de manhã, antes mesmo das 6 horas da manhã, tão logo eu abria um de meus olhos e olhava para o teto sujo do quarto, vinha um único pensamento. Eu desejava que ele morresse. Podia ser morte natural, acidental, não importava. Já havia passado pela minha cabeça, pobre cabeça, a idéia de colocar alguma sorte de veneno na sua vitamina matinal. A medida que os dias, semanas, meses se passavam, a vontade de me livrar daquele cadáver pensante se tornava mais e mais real. Já não existia qualquer chance de ter uma vida feliz ali. Duas gerações diferentes, duas maneiras distintas de enxergar a vida e encarar Ela, a morte. Completara 85 anos no domingo passado, domingo frio de verão cujas horas pareciam passar mais lentamente do que anos inteiros, do que todos os seus 365 dias bem contados. E no terceiro andar daquele velho edifício central, de paredes descascadas e um par de sofás puídos e maltratados pelo tempo, apenas eu e ele, o meu avô.
Desde que mamãe morreu, doze anos atrás, seus irmãos se distanciaram da família e coube a este que vos escreve a incumbência de tratar do velhote. À época, ele então com 73 anos, não havia sequer um rastro de que daquele dia em diante sua saúde seria uma íngreme e dolorosa ladeira abaixo.
Apertei forte o cigarro contra os dedos de modo que a fumaça custasse mais pra encher os meus pulmões. Bastava três fortes e longas aspiradas naquele pequeno bastão de papel e tabaco para que tudo se esvaísse em cinzas. Como de praxe, eu preparava o nosso café da manhã. Com a mão direita, visto que o cigarro encarregava-se de ocupar a mão esquerda, eu mexia um par de ovos caipiras para ele. Um punhado de sal a mais nesta frigideira e poderia transformar sua pressão arterial numa bomba de gasolina, pensei. Seria fácil, relativamente rápido e jamais, de modo algum, alguém poderia sequer imaginar de que eu o havia matado. Mas eu era molenga demais pra fazer qualquer coisa dessa natureza. Era meu avô, eu não podia negar. Fato irrefutável. A cada espasmo dos seus lábios contraídos pela dor, a cada coágulo de sangue que ele regurgitava sobre a mesa, eu lembrava dos meus tenros anos. Aos domingos, religiosamente às 10 da manhã, vovô pegava em minha mão e me levava para um passeio no parque. Não lembro detalhes, mas deveria ter por volta dos 5 anos de idade. Vestia sainhas rosadas e azuladas plissadas. Meinhas três quartos, laço no cabelo e sapatilhas negras envernizadas. Tão brilhosas que permitiam ver a ponta do meu nariz reluzir sempre que olhava para baixo. Eu gostava daquilo. Vovô era um homem forte, atraente, e ao seu lado eu me sentia como uma moçoila dez anos mais velha do que minha idade e estupidez real. Comíamos milho verde na banquinha da esquina. Em seguida, devorava com uma fome somaliana o resto do milho do vovô mais um copão de caldo de cana…

sexta-feira, novembro 11, 2005

amor fugaz

Finalmente a câmara fotográfica russa, do início do século passado, herança do avô morto doze anos atrás, serviria para alguma coisa. Luana trancou-se no quarto e se despiu. Sem pressa, pegou calcinha por calcinha até encontrar a que mais lhe agradasse. Fez o mesmo com o sutiã. As unhas do pé, atraentemente rosas, pareciam ainda mais rosadas diante do contraste da pele morena, resultado de finais de semana ensolarados na areia da praia. Perfumou-se. Era um ritual pessoal, de libertação. Muito mais do que de conquista do outro. Encontrava-se completamente apaixonada. Encontrava-se completamente nua. Brincava com os dedos, e com a língua, e com os cabelos negros e compridos (cerca de dois palmos abaixo do ombro). Clicou-se no espelho. Uma. Duas. Três chapas. Na cama macia, sob um edredon azul-esverdeado que emulava as ondas do oceano, Luana deitou-se.
E dormiu pra sempre.

sem saída

me espreme contra a parede
tira todo jugo de mim
me acomoda entre os sulcos
desse amor que não tem começo
nem
fim

artistas e modelos

Não só continuo a beijá-la como se estivesse sorvendo toda a sua boca, língua e fôlego com a grande boca morena, como suas mãos a machucaram, apertando a carne profundamente, deixando marcas e dor por tudo.

Anaïs Nin, Delta de Vênus

Nem tudo são flores

As flores são simples, quase pobres.
A intenção é digna, quase nobre.
Você que é linda... quase minha!
(Faltou rima; sobrou desejo)

beijo na boca
(que eu ainda lembro a forma, mas quase esqueço o gosto)

sábado, outubro 22, 2005

ode ao tempo, ao amor e às coisas que vêm do céu

Pingaram duas gotas de estrela
uma em cada sentido da face
arremessando-se rumo ao chão
despidas e sem disfarce

e o rosto ardia
como se lambesse o sol
era dia
e o amor nascia

o tempo foi tão curto
que o coração pensou
e parou

Cala-te



Não não não
não grita
corre defronte ao verso
e deixa que a razão explica

morde bem os lábios
respira bem
e pensa fundo que a resposta nunca vem

descansa a alma combalida
pela dor daquele que despreza
e não não não grita
só deixe que a razão explica